Victor Garcia – in memory of the 20th century greatest stage director

RIO – Victor Garcia era um mistério. Como tal, por onde passou suscitou especulações, versões e impressões nunca definitivas sobre sua personalidade e seu teatro. Não que os relatos de quem o acompanhou de perto ou de longe, parceiros de palco ou espectadores, não cheguem a um consenso. O problema é que o senso comum aponta para o mesmo lugar:
— Victor Garcia era um mistério. Era não, até hoje é.
Quem diz é Jefferson Del Rios, jornalista e crítico teatral que dedicou 16 anos a uma pesquisa que resulta agora na biografia “O teatro de Victor Garcia — A vida sempre em jogo” (Edições Sesc-SP). A lógica paradoxal do conhecimento — segundo a qual a dimensão da ignorância se alarga à medida que se aprofunda a investigação sobre algo — é aplicada à existência e ao teatro criado pelo diretor, morto há 30 anos.
Andarilho, Garcia vivia hospedado em casas de amigos e quartos de hotéis. Tinha uma mala e algumas peças de roupa. Nunca teve residência fixa, carro ou conta em banco. Apresentando espetáculos na América do Sul, na Europa e no Oriente Médio, suas criações foram parcamente documentadas, e suas teorias e práticas não levaram à estruturação de métodos. Por isso, seu nome inscreve-se no campo da memória, assim como seu teatro, sujeito às lembranças do espectador. E foi empenhado em manter essa memória viva que Jefferson Del Rios elaborou seu livro, que se divide entre uma biografia e um caderno de testemunhos, com entrevistas, críticas, artigos e depoimentos de artistas, pesquisadores e admiradores. Nascido em Tucumán, região Norte da Argentina, em 1934, Garcia viveu 47 anos e dirigiu 21 peças até ser encontrado caído e alcoolizado, esfarrapado como um indigente, nas ruas de Paris, em agosto de 1982.
Trazido ao Brasil por Ruth Escobar, no fim dos anos 1960, seu teatro revolucionou a cena do país. Suas montagens para “Cemitério de automóveis” (1968), que reunia textos de Fernando Arrabal, “O balcão” (1969), de Jean Genet, e “Autos sacramentais” (1974), de Calderón de La Barca, alteraram e ampliaram a visão dos artistas brasileiros:
— Victor rompeu com o naturalismo, com o realismo, o palco italiano, a investigação psicológica do personagem, a proposta do autor — enumera Stênio Garcia, que protagonizava “Cemitério…” em meio a um ferro-velho lotado de carcaças de automóveis. — Era tudo ao contrário. A teatralidade estava no corpo, na fala, fora do universo mental. Ele dizia para eu gritar, me comunicar como se precisasse atingir o Sputnik. Eu disse a ele: “Isso é absurdo.” E ele: “Eu quero o absurdo.” Toda palavra dita deveria causar uma sensação nova.
Sérgio Mamberti, que contracenou com Raul Cortez e Célia Helena em “O balcão”, relata sua experiência:
— Era um teatro ritualístico, provocava um despertar da pessoalidade. Victor propunha aventuras. Ele redimensionou o teatro no país, e foi a experiência teatral mais importante da minha carreira.
Para cada espetáculo, Victor elaborava um novo projeto arquitetônico: “O essencial é encontrar uma arquitetura”, dizia. Assim, destruiu o palco italiano do Teatro Ruth Escobar e instalou ali uma edificação de cinco andares, de onde descia uma rampa em espiral de nove metros cercada por elevadores, guindastes e gaiolas. Gerald Thomas, que assistiu a “O balcão” no começo da adolescência, recorda o impacto:
— Victor dirigia o que estava em volta, o entorno. Aprendi isso com ele. Instaurava climas, sensações, estados de percepção. Não conheci ninguém que fizesse isso — diz. — Ele estava à frente, tinha uma visão pós-moderna nos anos 1960, mas não era verbalmente articulado. Era um sujeito encantado, que olhava diferente, sempre meio fora do ar. Era a mistura de Artaud e Rimbaud. Não só um diretor de teatro, mas um artista completo que, por acaso, fazia teatro. Ele me influenciou, influenciou Bob Wilson e muitos outros. As pessoas devem muito a ele. Victor era um vaga-lume com uma luz na bunda.
Durante a entrevista, Del Rios justifica seu trabalho — “Fui atrás das marcas de um talento que não deixou pistas nem rastros” —, lembra dos bordões do diretor — “Tudo vai acabar e não resta nada” —, elabora sobre o niilismo escapista do biografado — “Ele não queria deixar provas da sua existência” — e discorre sobre sua acidentada peregrinação em busca de informação:
— Na Espanha e em Portugal não havia nada. É diferente de um Peter Brook ou de um Grotowski, sempre documentados — diz.
Mas, entre a desistência e a persistência em dimensionar o legado e desvendar os mistérios de Victor, Del Rios continua até hoje a somar impressões:
— O teatro dele era um ritual pagão, uma missa, um carnaval, candomblé, um pôr do sol no Arpoador, ou seja: inexplicável. Você assistia e saía do teatro perguntando: “O que é isso?” Ele queria registrar essa pergunta: “O que é isso?” — diz o autor. — É difícil falar dele sem soar melodramático, mas o Victor me fez enxergar o artista como um sacerdote, como um mágico capaz de mexer profundamente com a sensibilidade e as zonas mais profundas da consciência. Victor trabalhava no limite do cósmico, o resto é veludo vermelho. Eu poderia dizer que ele desestabilizou as concepções do teatro, mas não adianta. O resto é o mistério do cara.

Genet's "Balcony" in Sao Paulo (1969) (Teatro Ruth Eescobar)

Genet’s “Balcony” in Sao Paulo (1969) (Teatro Ruth Eescobar) – book by Jefferson Del Rios – material gathered and reproduced thanks to O Globo: Garcia was Argentinean.

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