“Company” by Beckett – “Companhia” de Beckett e outros contos: translation being published in Brazil

A Voice comes to one on his back in the dark. Imagin

A Voice comes to one on his back in the dark. Imagin

Como traduzir a linguagem imaginada? Deve parecer horrendamente difícil traduzir sons ou silabas cantantes, mas, dependo do autor, não é. Em se tratando de Samuel Beckett, a coisa é mais facil e menos pretenciosa do que possa parecer.
No otimo prefacio de Fabio de Souza Andrade, sou citado na pagina 9 como tendo encenado “All Strange Away” no La MaMa. Nao chega a ser um erro. Essa prosa adaptada para o palco teve duas versões e a segunda foi para a Broadway (com conceito e ator mudado: Robert Langdon Lloyd da Royal Shakespeare Company foi o solista dessa segunda e mais importante versão), acabou fracassando, apesar da critica excelente do New York Times. Por que? Porque eu “pretendia” demais, coloquei significados demais onde eles não cabiam. O que o prefacio também não constata é que dirigi essa mesma “Company” em duas versões: uma para a estação de Radio WBAI com Julian Beck e outra com o ator do Mabou Mines, Fred Newman (que já havia a montado antes no Public Theater). Mas vamos a tradução:
Frase do próprio Beckett pra mim : “No Symbols where none intended” (depois fui constatar, anos depois, que essa frase estava no seu livro “Disjecta”). Sim, símbolos, mas o exagero e uma tradução literal e, portanto, não criativa, podem matar um autor como Beckett. Mesmo em sua prosa, Beckett é “literatura de palco”.
Para entrarmos em sua na literatura, temos que entrar no seu campo sensorial, na fluência da rima e dos sons, como se fosse uma sonata ou um solo de jazz. Sons puros, desprovidos de preposições, palavras inusitadas que interrompem frases e pensamentos assim como se fossem atonalidades invadidndo uma fuga de Bach.
Mais tarde em sua obra, ele as cortou todas, as interrupções atonais ou quaisquer obstáculos que faclitassem a nossa chegada rápida ao escuro cranial do autor. E, o que restou, foi o pensamento limpo, o solo seco, a imagem de um esboço sem retoques.
Não se trata somente de manter a linguagem simples mas também cabe ao tradutor não complica-la com silabas e consoantes que não cabem aqui ou ali.
Beckett precisa ser lido, visto e ouvido. Mesmo que a tradução nao seja precisa, afirmo com orgulho que, seja la como tenha saído esse “Company and other”, o livro precisa ser lido, já que no Brasil ha pouquíssimo de sua literatura disponível.
Ja provei demonstrei diversas vezes que Beckett NAO escrevia em frances. Escrevia em ingles. O mito dele escrever primeiro em Frances durou por anos porque Beckett (para escapar dos clichés de linguagem,) pedia a Roger Blin que o ajudasse na conversão pro Frances.
Podem discutir o quanto quiserem, podem inventar quantos “Martin Esslins” quiserem mas ele, o autor em pessoa, ao vivo e sem muitas cores – com alguns tons de cinza – me disse isso ao longo dos seis anos em que convivemos.
Acontecia sim , que alguns textos como Murphy ou Molloy sairam antes em Paris pois seu editor e editora (Jerome Lyndon – Edicion Di Minuit) ficava em la. Demorou um tempo pra que John Calder (em Londres) ou Barney Rosset (em NY) o publicassem no original.
Afinal , “Godot” –a palavra e o conceito em si– brinca com a palavra God (que em frances nada quer dizer, pois seria Dieu), e seus personagens, como “Lucky” (sortudo) nada quer dizer em frances. Muito menos o Hamm e Clov ou Nagg e Nell ou Winnie (os primeiros 4 de “Fim de Jogo” e a ultima de “Dias Felizes”). Hamm quer dizer ator canastra mas é também presunto e o diminutivo de Hamlet que também quer dizer cidadela. Clov vem de “clove” (cravo) que é como se tempera o “ham” (presunto) do natal em algumas regiões celtas e inglesas. Vem também de “clown” (palhaço). “Nagg “ eh aquele “pentelho”, aquele sujeito que fica enchendo o saco do outro e Nell vem de “nail” (prego), ou derivado da palavra alemã “nelken” (cravo). Portanto, um circulo inteiro de combinações foi fechado, relacionado ao próprio Clovm, a família de Hamm na lata de lixo, etc).
MAS TEM QUE SE TER HUMOR. BECKETT nos pedia tanto para ressalta-lo. Infelizmente, nessa edição falta humor.
A maior dificuldade com Beckett e em Beckett é a palavra “ON”, recorrente obsessivamente em sua obra desde o inicio. Ela significa tudo, desde “aceso”ate “continue” ate “sobre” ou “em cima de”.
E quando Beckett coloca um “On” ali, é facil colocar no papel uma palavra como “avante”. Esta ai um dos muitos erros da tradutora. Não pretendo aqui corrigi-la ou transcriar uma nova versão de Company, mas, por exemplo, um “vá” ou “vamos la”, seria muito mais o caso. Numa de muitas conversas com o autor, eu me lembro de lhe ter falado em usar o “on” como – talvez – “abrir”. Serve pros olhos e pra luz. Não serve, contudo pra “continuar”. Sim, é difícil.
Já que Beckett escreve prosa como se fosse dramaturgo e peças como um romancista, o ON tem que ser transcriado alem de traduzido.
“Nao posso continuar. Continuo”
A tradutora usa – ja na primeira frase de Companhia o imperativo : “Imaginar”. Não é. Eh “imagine”.
A voz que vem ao sujeito de costas no escuro não “imaginar”, mas ele a imagina.
Asssim como em “Imagination Dead Imagine” (Imaginacao morta imagine) ou em “Eh Joe”
( peça televisiva) , “Lavantar” eh uma ordem pesada demais e nao nos deixa o espaço para a comedia de um ser comandado robótico e apático, (como quase todos aniquilados pela monótona repetição da vida cotidiana). “Levante Joe” e não “Levantar Joe”.
Traduzir é difícil. Tão dificil quanto descrever uma pintura abstrata de Jackson Pollock. Pois é. Imagem é dificil. Imaginar é mais dificil ainda.
Algumas obras nao deveriam ser traduzidas. Claro que isso seria uma tremenda injustiça com o povo do mundo que nao gira em torno do ‘poliglutanismo’. Exemplo magnificos são “Faust” de Goethe e “Finnegan’s Wake” de Joyce.
Como traduzir algo que não é linguagem escrita ou falada e sim, imaginada?
O primeiro poeta concreto da historia (Goethe) brinca com os punhos, o punho e os pulsos, que se sujam do sangue que jorra pra que se assine o contrato com a eternidade, com o futuro e o aniquilamento do passado: assim, um “Me”Fist (meu punho – ou, simplesmente Mefisto), precisa de um “Me”Faust, ambos “meus punhos”, um em inglês, outro em alemão: ambos desesperados um pelo outro e ambos de punho em riste para enfrentar o outro.
Ou em Finnegan’s Wake, de Joyce. A partir do titulo, Joyce ja nos vem com “acordar”, “acordar no fim” ou 
“funeral, funeral do fim”, ou o “acordar da barbatana”, ou o velorio da “barbatana” que acorda. Haroldo e Augusto de Campos conseguiram traduzir trechos no “Panaroma”, aproximando e transcriando, ja que a tradução pura e simples é realmente impossivel.
Com Beckett a coisa se agrava, pois, alem de escritor novelista, é o maior dramaturgo do século XX. Entao existe a fala falada, a fala oprimida pela mente que a pensa, e a censura do ouvido que a escuta. Mesmo em sua prosa, as palavras pulam para a boca que quer falar, que PRECISA falar, assim como a vida PRECISA continuar, apesar da desistência niilista do personagem que ali vive. Se esse “continuar” se transforma num simples “avante”, a prosa “Falha. Falha de novo. Falha melhor”, o que não é de todo ruim, dentro desse fantástico universo realista.
Gerald Thomas
New York

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