About Sergio Britto: Folha de São Paulo, Dec 19, 2011

São Paulo, segunda-feira, 19 de dezembro de 2011Ilustrada
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Texto Anterior | Próximo Texto | Índice | Comunicar ErrosDEPOIMENTO SERGIO BRITTO (1923 – 2011)

Ator era apaixonado por tudo o que se nutria de drama

Morto no sábado, Britto era um “ser beckettiano” como Thomas, que veio ao Brasil a convite do ator

Convivíamos como tias que fofocam e falam sério, que sentem nostalgia até dos tempos que não vieram

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES
A maior questão para o autor sempre foi: como reduzir à palavras os grandes sentimentos e as fortes emoções que se tem durante uma vida?

Esse dilema me bate na cara justamente quando essa, a maior “questão”, é testada por meio da morte de um de meus melhores amigos e parceiro de trabalho de décadas.

Como escrever sobre Sergio Britto, “minha vida, minha morte, meu amor” -palavras de Valmont, personagem do nosso “Quartett”, de Heiner Mueller-, como Tônia Carreiro dizia baixinho, ao som ensurdecedor dos cellos, enquanto Sergio se deixava cair no palco como se fosse um Tristão que não queria mais sua Isolda, justamente por ter sido testado pelo dilema de se saber demais e não conseguir representar tantos símbolos ao mesmo tempo.

Sergio Britto caído no palco do teatro Laura Alvim, no Rio, em 1986, com Philip Glass sentado, mudo (ou quase), dizendo: “Esse ator é simplesmente maravilhoso”.

Mas foi aqui, em Londres, que tudo começou.

Conheci Sergio aos meus 16 anos, em Chalk Farm, onde fica o teatro The Roundhouse. Ele estava de passagem com a peça “Autosacramentales”, de Calderon de La Barca. Vinha desde o Brasil com meu telefone, dado por Sergio Mamberti (veja o papo com os dois em geraldthomas.net).

Se me perguntarem se há alguém neste planeta com quem sempre tive total afinidade, a resposta é imediata: Sergio Britto.

NOSTALGIA

Aliás, este sábado [dia 17]está horrendo! Acordei mal e queria visitar o túmulo de Karl Marx, em Highgate. Desisti. Dei meia volta e cheguei em casa me sentindo mal. Fui avisado da morte de Sergio. Meu primeiro impulso foi escrever à minha futura-ex-eterna-para-sempre sogra Fernanda Montenegro, com quem me correspondi ainda ontem [sexta], mas com leveza, numa típica troca de e-mails de fim de ano. Mal sabíamos.

Devo a Sergio a vida do meu teatro no Brasil. Mas não é assim tão fácil. A troca foi recíproca. Convivíamos como duas tias que fofocam e falam sério, daquelas que sentem nostalgia até dos tempos que ainda não vieram.

Discordávamos. E como! Mas discordávamos a respeito de teatro. Só falávamos de teatro: das diferenças entre as culturas, do atraso estético do teatro brasileiro nos anos 1980, do formalismo do teatro inglês e das vanguardas que cresciam em Nova York, no “off off Broadway”.

“Sergio! Você está roncando!”, eu o cutucava nas costelas quando íamos ao National Theatre, em Londres, ou à Broadway, em Nova York. Assim que os refletores diminuíam sua intensidade, ele dormia. “Roncando? Como você se atreve?”, ele reagia. “Quieto, Sergio! O Michael Gambon e o Alan Bates estão ouvindo você berrar na plateia.” Era muito engraçado.

MÚSICA

Sergio era um surdo mal assumido. E afirmava ter uma “eterna ameba” que o fazia dormir na plateia -e até no palco! Certa vez, em “Quatro Vezes Beckett”, Sergio dormiu em cena, enquanto a cortina se abria. Rubens Correa, lá atrás, era quem dava a primeira deixa, berrando a palavra “música!”. Sergio tinha de reagir, dizendo algo típico dos diálogos de Beckett. Essa peça, o “Teatro 1”, era uma pré-etapa do que viria a ser o “Fim de Jogo”, aquela memorável e imortal peça em que Hamm e Clov se pegam, se atazanam, do início ao fim.

Antes disso, estava em Nova York, dirigindo o La MaMa, e Sergio me visitava com frequência. Insistia em que eu fosse dirigi-lo no Teatro dos Quatro, na Gávea, no Rio.

Eu nunca sabia como encarar seus convites. Foi quando Julian Beck, criador do Living Theater, disse: “Vá ao Brasil. Lá terá dinheiro e palcos maiores. Quando retornar para Nova York, estará nas capas dos cadernos culturais”. E assim foi.

Fui. Sergio Britto, Ítalo Rossi e Rubens Correa, numa montagem quase espelho da nova-iorquina, mas com uma peça a mais: o “Nada” (terra coalhada de ruínas….).

“Chica, traz aquele feijão bem forte. Ele gosta forte, lembra?”, berrava Sergio, num de seus vários apartamentos em Copacabana, no Leblon, em Santa Tereza.

Chica cuidava de tudo. Inclusive de sua videoteca de filmes e de teatro. Sergio era ator, diretor, produtor, professor e apaixonado por tudo o que se nutria de drama, do palco falado ao cantado.

De certa forma, Sergio e eu éramos dois seres beckettianos. Vivíamos numa atmosfera de eterna discordância e pequenos beliscões e petelecos, muito carinho e muito amor.

“Você ainda está aí?”, Hamm (cego), pergunta a um Clov inquieto. “Como eu poderia não estar?”

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