Estado de Sao Paulo – GT – 9/11

Flávia Tavares – O Estado de S.Paulo

Contemplativo, Gerald Thomas costumava divagar sobre o que escreveria para uma coluna que mantinha olhando para o nada pela janela de seu escritório, em Williamsburg, no Brooklyn. Não exatamente para o nada, mas para o World Trade Center, já tão fincado na paisagem que nem se destacava mais. Até aquela manhã dos ataques. “Alguém me ligou histérico dizendo para eu ir para a janela. Fiquei trêmulo, atônito. Enquanto eu estava olhando, veio o avião na segunda torre. Quando a torre caiu, caí junto, com o computador. Só me lembro de chorar convulsivamente.”

O dramaturgo recebeu uma convocação ainda naquele dia para trabalhar nos escombros. “Não tive muito tempo para pensar. Era escrever, ir para o buraco, voltar pra casa e tentar dormir. E era impossível dormir. Fiquei 21 dias nessa “rotina”, coberto de poeira e asbesto”, lembra. Thomas não dá muitos detalhes sobre esse trabalho, mas, em uma entrevista na época, contou que chegou a fazer triagem de roupas achadas secas, duras de sangue, “na esperança de encontrar documentos, cabelo”, qualquer coisa que identificasse a quem elas pertenciam. Também serviu café e suco de laranja para os outros trabalhadores.

Na tragédia, Thomas perdeu um advogado e todas as suas secretárias. “Era um escritório com sete advogados no total. Perdi também um editor de vídeos”, conta. O clima que se seguiu àquela terça-feira foi de dor e união. “Foram três meses de caos, abraços e choros e a nação virou uma “Nação Zumbi””, descreve o dramaturgo. Ele lembra que, aos poucos, “começamos a entender que (Dick) Cheney, (George W.) Bush, (Donald) Rumsfeld, etc, estavam envolvidos, de uma forma ou outra”. “Não esperei sair os livros “Plan of Attack” ou o “State of Denial”, do Bob Woodward, ou o relatório da Comissão 11/9 para descobrir a m… envolvida ali.”

Gerald Thomas se divide hoje entre Londres e Nova York e, dez anos depois dos ataques, encenou suas impressões na peça Throats, na capital britânica – que veio para o Brasil com o título Gargólios. Quando fala dos efeitos do 11 de Setembro no que é a cidade hoje, poetiza. “Nós somos góticos. Somos uma cidade de ferro guza. Sabemos nos reerguer com orgulho.”

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