Nada Prova Nada! O Globo 26/04/2011


RIO – Dois Baracks (Obama, um pré e um pós-Casa Branca), um La MaMa (Theatre, lá de Nova York), saudades de Beckett e perplexidade frente à Paixão antissemita de Mel Gibson diversificam o cardápio literário servido por Gerald Thomas no livro “Nada prova nada!”. Nas livrarias esta semana, via editora Record, a coletânea de crônicas, a maioria delas pinçada da blogosfera, condensa a vocação de escritor, de comentarista político e até de jornalista do polêmico diretor teatral. É seu momento Forrest Gump, contando suas histórias da História. Preparando-se para encenar em Munique seu mais recente espetáculo, “Throats”, montado em Londres de fevereiro a março, Gerald, morando em solo nova-iorquino, comenta nesta entrevista sua experiência como cronista, atualiza as novidades sobre “Copywriter”, longa-metragem que tenta rodar desde 2002, e fala dos dez anos da tragédia do 11 de Setembro.

O GLOBO: Escrever crônicas alimenta suas ambições literárias?

GERALD THOMAS: Fora “Pedra de toque”, texto inédito escrito para o livro, o que você lê é o resultado de sete anos de blog, com milhares de textos produzidos. Alan Flavio Viola, que fez a seleção da coletânea, reuniu um conjunto de crônicas que me dá um gás para tentar outra coisa. Se eu não tivesse com as mãos ocupadas com “Throats”, que virá para São Paulo em maio, eu poderia tirar um ano sabático e escrever um romance. Bom… não sei se seria um romance. Talvez eu tivesse que fazer o livro sobre o teatro La MaMa. Já me falaram em um livro sobre Beckett, mas eu não sou um crítico analítico. Ele foi meu mentor.

Lidas em conjunto, as crônicas adquirem um tom nostálgico. Você mesmo fala em nostalgia na primeira pessoa. São saudades de quê?

Eu desabafo. Desabafo no livro, desabafo no blog ( geraldthomasblog.wordpress.com ), desabafo no palco com a companhia, a Dry Opera. Sou um falador. Sempre fui. E tô muito velho para mudar.

No entanto, mais que desabafar, você traça uma História particular da segunda metade do século XX e da primeira década do XXI no livro, num espírito Forrest Gump. Você presenciou alguns dos principais eventos dos últimos 50 anos. Essas crônicas são a memória desses eventos?

Estava num apartamento virado para o World Trade Center quando o 11 de Setembro aconteceu. Estava no Tennessee quando o dr. Martin Luther King foi assassinado. Fazia parte do comitê de campanha de Obama quando o primeiro presidente negro dos EUA foi eleito. I’ve always been there. Por isso, o livro parece um passeio pelo mundo das catástrofes, indo das loucuras de Muamar Kadafi à merda da intervenção americana no Iraque. Sou testemunha acidental da História. Acidental ou premonitória.

Leitores de seu blog postam perguntas do tipo: “Gerald, o que você vai fazer para lembrar os dez anos do 11 de Setembro?” Já decidiu?

Nem sei onde eu vou estar no 11 de Setembro. Provavelmente eu vou estar aos prantos. Talvez eu ainda esteja na Alemanha encenado “Throats”. O que eu posso dizer sobre o 11 de Setembro hoje é que inverteram-se as cartas que nos fizeram sentir patrióticos no momento da tragédia. Ficou claro para todo mundo o envolvimento do Bush e do Dick Cheney em tudo aquilo. Para justificar uma invasão sangrenta ao Iraque, inventaram uma conexão do Saddam Hussein com os atentados e caçaram o cara até achá-lo num buraco suspeitíssimo. E o pior é que uma imunidade política impediu que o Bush fosse investigado. Isso aqui não é uma democracia. É uma república de mãos incrivelmente sujas. Os americanos só conhecem o mundo pelos países que invadem. Ninguém aqui saberia onde fica o Vietnã se não tivesse acontecido a guerra.

Seu desprezo por Bush é inversamente proporcional à sua admiração por Obama. O entusiasmo permanece?

Amo o Obama cada vez mais, porque ele quebrou o monopólio da direita de um modo que os republicanos, até agora, são incapazes de encontrar um candidato à altura dele para disputar as próximas eleições presidenciais.

E quanto ao Brasil de Lula e, agora, o Brasil de Dilma?

Não sei nada sobre a Dilma, só o fato de que ela recebeu Obama muito bem. Sei que ela era a queridinha do Lula e que foi guerrilheira. Sobre Lula, não tenho nada a dizer, embora não tenha rancor. Quando Gilberto Gil virou ministro da Cultura e tachou o teatro que eu faço de elitista, eu me afastei das questões brasileiras. O que eu faço pode ser entendido pelo leigo mais vagabundo. É simples.

Você defende a simplicidade até analisando Beckett em “Nada prova nada!”.

Beckett fala de coisas reais. Ao falar de alguém que não chega em “Esperando Godot”, ele denuncia a falsa esperança, algo real. Não é diferente de Plínio Marcos: “Godot” fala de dois perdidos numa noite suja. Até Bergman, por maior que seja, é mais simples do que ele é lido. Era um homem de teatro, que >ita<psicologizava tudo por vir da cultura sueca, onde as pessoas não se expressam. Todo mundo é mal-interpretado. Kadafi taí há 40 anos e só agora foi interpretado como vilão. Aos 57 anos, você cria na cabeça uma tecla chamada “fuck you!” que aperta sempre que vê a má interpretação das coisas.

Cadê seu primeiro longa-metragem como realizador, que você anunciou em 2002, com o ator dinamarquês Kim Bodnia?

Kim se mostrou inconfiável. Mas Hugh Hudson (diretor de “Carruagens de fogo”, com quem Gerald palestrou em 2008 na Mostra de São Paulo) é um incentivador do filme, que se chama “Copywriter”. Meu problema é tempo para terminar o roteiro.

Mel Gibson é tema da crônica mais engraçada do livro. Já a crônica sobre Cacá Diegues é a mais elogiosa.

Gibson deve sofrer de uma impotência grave para justificar sua intolerância. Cacá é o grande gênio do cinema. Não vi “Tropa de elite” ainda. No Brasil, o José Padilha, que é muito simpático, deixou um DVD comigo, mas minha mala foi extraviada.

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