Today’s Folha de S Paulo article on Throats…


SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL A LONDRES

Um ano e meio depois de dar adeus ao teatro, com uma catastrófica carta de despedida em que dizia que essa arte já não faz mais sentido nos dias de hoje, Gerald Thomas, 56, está de volta.
“Throats” (gargantas) estreou na última sexta-feira no Pleasance Theatre, em Londres. Trata-se de uma peça sobre o mundo pós-11 de Setembro. Há um atentado terrorista, que se confunde com um acidente de trânsito.
Depois dele os mortos se encontram numa espécie de banquete, onde o vinho servido é o sangue de outros atentados e de outras datas de conflitos históricos.
É a primeira obra da companhia de teatro que o dramaturgo montou na capital inglesa aos moldes, e com o mesmo nome, daquela que o tornou célebre no Brasil nos anos 80, a Ópera Seca.
Agora batizada de London Dry Opera (www.londondryopera.com), é composta de sete atores, escolhidos por meio de audições que contaram com a participação de mais de 600 candidatos.
Thomas justifica o retorno dizendo que não aguentou ficar muito tempo longe dos palcos e por não saber fazer outra coisa. “Se existisse um “rehab” para alguém se curar do vício do teatro, eu me internaria nele.” Porém, afirma que tudo o que disse em seu manifesto segue valendo.
“O teatro como o conhecíamos não existe mais. Cada vez menos as pessoas se interessam por ele”, diz. E culpa as novas mídias. “Há uma diluição no consumo das artes e das informações, uma personalização da percepção. Todos estão dentro de seus iPods ou iPads, cada um com aquilo que lhe interessa, não há espaço para uma arte mais aberta num mundo como este.”
Também critica a “idiotização geral” do planeta. “Aqui e em Nova York, o que mais vejo é a popularização desses programas tipo “American Idol” ou “Britains Got Talent”. É o show do Chacrinha globalizado; está acontecendo uma “brasileirização” do mundo.”
É por sentir-se assim, meio perdido em seu próprio universo, que Thomas se incluiu em “Throats” na forma de um personagem que cruza a trajetória dos outros.
Há um garoto cego, com um nome de origem muçulmana, Yussef, que busca um endereço em Nova York. Pergunta por ele a várias pessoas. Leva nas mãos um bilhete (referência a Samuel Beckett) e uma rosa morta (referência a Jean Genet). “O menino sou eu, e o endereço é o do La MaMa, teatro onde me formei e onde está a fonte de tudo o que fiz.”
A Folha acompanhou um ensaio e a estreia da montagem. Apesar de seu discurso pessimista, o diretor age como sempre.
Orienta os atores com vigor, dá broncas e faz piadas, irrita-se com a baixa qualidade da produção, improvisada às pressas. Orienta pessoalmente a entrada da luz, da trilha sonora e da fumaça, marcas pessoais de sua obra.
O cenário é montado entre ruínas das Torres Gêmeas, reforçando a mensagem política. “Meu teatro sempre foi político de certa forma. As pessoas no Brasil parece que nunca entenderam. Acham que faço teatro surreal e hermético, mas não é verdade.”
Apesar disso, Thomas diz que o teatro tem pouca chance de mudar a realidade. “É arte de elite, portanto ineficaz nesse sentido. Se Augusto Boal ou Zé Celso achavam que podiam promover revoluções, estavam errados. Nem Bertolt Brecht mudou a Alemanha de Hitler.”
Thomas se mostra desinteressado pela política brasileira atual. Crê que Lula “institucionalizou a burrice no poder” e não se conforma com os escândalos de corrupção que envolveram o PT.
Diz, porém, que não tem uma opinião formada nem de Dilma nem de Serra. “Estou afastado, nem me lembro bem as siglas dos partidos, prefiro assim.”

Primeira noite lota teatro para 280 pessoas

DA ENVIADA A LONDRES

“Throats” estreou na última sexta-feira, uma noite gelada do inverno londrino, num teatro alternativo da cidade, o Pleasance, em Islington. O espaço, para 280 pessoas, estava praticamente lotado.
Na plateia, uma presença ilustre, John Paul Jones, do Led Zeppelin, responsável pela trilha sonora e com quem Thomas está montando uma ópera.
A peça tem todos os elementos que caracterizam o teatro do diretor, ingredientes operísticos, repetições, música alta, fumaça, texto cheio de citações, referências a Samuel Beckett (com quem Thomas trabalhou na juventude).
O palco giratório oferece dois espaços. No primeiro, acontece o banquete dos mortos após o atentado. No segundo, a crucificação e o local do acidente.
O elenco, variado, conta com dois destaques, Angus Brown, que interpreta o “garçom” do purgatório, e Adam Napier, que lembra muito o humorista Stephen Fry. A atriz portuguesa Maria de Lima canta trechos de uma canção de Cesaria Evora assim que chega à mesa do banquete.
Thomas conta que o título original era “Heaven Sexual Victims”, mas que depois achou que isso “espantaria o público”.
O texto foi escrito depois de escolhido o elenco, e terminado apenas dias antes da estreia. O diretor ainda estuda cortes de cenas e eventuais mudanças com relação ao que foi mostrado na sexta-feira.
Há planos de levar o espetáculo a São Paulo mais adiante, e o local escolhido seria o Sesc, mas tudo depende do desempenho dessa temporada londrina, que vai até 27 de março, com apresentações de terça a domingo.

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