Beuys fez a obra mais apaixonante da atualidade. Folha de Sao Paulo (24/09/10)

Artista alemão acreditava na utopia da arte coletiva e transformadora

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES

Duchamp mudou o mundo com pouquíssimas obras e um bom manifesto.
No século 20 ainda era possível pensar que arte mudaria o mundo.
O legado de Marcel Duchamp (1887-1968) é inegável e vive até hoje. O inventor do “já inventado” (ready mades) nos conduziu para uma arte mais fria, mais analítica: a arte da demolição dos conceitos sagrados.
No caso de Joseph Beuys (1921-1986), tem-se o cúmulo da utopia: “A Universidade Livre Internacional, o Projeto Defesa da Natureza”. Se Duchamp inventou a roda de bicicleta, Beuys faz o mesmo com o vinho, cujas garrafas tinham a sigla da “Universidade Livre Internacional”.
Seus “múltiplos” tornaram-se os veículos de propaganda da “Organização pela Democracia Direta por Plebiscito”. Sim, há humor. A questão é onde procurá-lo.
Duchamp deu em Andy Warhol (1928-1987) e parou na Alemanha, onde deparou-se com um enigma: Beuys. Beuys foi também um militar, um piloto e destruidor prático, e não somente de conceitos. Pilotou aviões da Luftwaffe até que foi abatido.
Dado como morto, acabou saindo vivo da aeronave e, caído na neve, foi enrolado em banha e feltro. Sobreviveu. Claro que a sua “assinatura” no mundo acabou sendo a banha, o feltro, tudo sempre embrulhado e com o sinal da Cruz Vermelha.
“A Revolução Somos Nós” ou “Arte=Capitalismo” (com 40 múltiplos e 20 vídeos), é a maior retrospectiva de Beuys no Brasil. São 250 obras de um artista que acumulou mais de 5.000 títulos. Mas como se julga um artista que fez parte do Terceiro Reich e, décadas depois, foi aceito e aclamado pelos EUA?
Suas performances como “Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim”, de 1974, deixam claro essa relação de amor e ódio: Alemanha x EUA. Não há como não enxergar a arte pós-Duchampiana como política/humorística. A arte de Beuys é tão política quanto a de Warhol.
Beuys é direto. Warhol mais sutil. Beuys é um filósofo, pintor, escultor, antropósofo, um estudioso da história. Warhol, não. Beuys acreditava na transformação social como “A” grande obra humana, necessariamente coletiva e essencialmente plástica. Warhol, americano, era menos dogmático e disse que “todos têm direito a 15 minutos de fama”.

CARTAZES
Convenhamos: quem foi piloto da Luftwaffe tem que se reinventar, ou reinvent-arte. Dominador da palavra concreta, (inseparável da obra de Beuys), os cartazes condensam e multiplicam a visibilidade de toda sua criação. Aqui, nessa exposição, vemos seu “arsenal de propaganda”. A complexidade de Beuys se resume em cartazes como “Conclamação à Alternativa”, “Beuys Luta Boxe pela Democracia Direta”.
Ou pela capa da revista Spiegel: ” Joseph Beuys: O Maior de Todos” com sua cara estampada em letras enormes. O artista fica ele mesmo exposto ao ridículo.
“Interessa-me a distribuição de veículos físicos, porque me interessa difundir ideias que contêm a radical mudança política”. Está aí um artista alemão, no melhor e pior dos sentidos.
Não existe na história recente alguém cuja obra é tão apaixonante: pode-se ficar lá dentro dela tendo pesadelos ou sonhos lindos.
Um dia, a arte e a política se juntarão. Aliás, já se juntaram. A retórica quase circense dos chefes de Estado e a nossa descrença perante eles, finalmente, deram na “Equação Beuys”.
Será que todos nós teremos que pilotar aviões, ser abatidos e cobertos por toucinho? O futuro não dirá!


GERALD THOMAS é diretor e autor teatral.

JOSEPH BEUYS – A REVOLUÇÃO SOMOS NÓS

ONDE Galpão Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, tel. 0/xx/11/ 3871-7700)
QUANDO de ter. a sáb., das 10h às 21h.; dom., das 10h às 20h; até 28/11
QUANTO entrada franca

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