do Blog do Sergio Davila

14/04/2008
Portugal e o Barack Obama lusitano

Mesmo com o mau humor proporcionado pelas horas de vôo entre Washington e Lisboa, com uma parada de duas horas em Londres, é impossível evitar o sorriso no caminho entre o aeroporto e o hotel da capital portuguesa. Primeiro, pela semana de folga entre amigos, que começava então e terminou hoje. Segundo, pelo nome da primeira placa que vi no trajeto: "Casa de Repouso Haja Deus!".

Outros sorrisos carinhosos, do filho que finalmente visita a casa dos pais depois de anos longe, vão saindo espontaneamente nos seis dias de estada. Seja pela lendária objetividade portuguesa, em placas que capturei em algumas fotos, como a da casa de repouso, seja pelo susto do uso da língua de maneira escorreita. É como se os portugueses falassem português de terno, e nós, de bermuda e Havaianas.

Numa parada a caminho de Cascais, desperta a atenção a publicidade do que no Brasil se chama de ponto de wireless: "Aceda aqui à internet sem fios". No restaurante à saída da pousada Santa Maria do Bouro, no meio do Minho, o cartaz avisava: "Há frango no churrasco para fora". Noutra parada, dessa vez no trajeto a Sintra, a foto de cinco senhoras simpáticas de uniforme e touca enfeitam a entrada dos banheiros: "Uma equipa brilhante -de hora a hora, a limpeza melhora".

Portugal parece estar estacionado num lugar próprio e à parte, olhando o mundo globalizado passar, e, enquanto degusta carapauzinhos fritos com arroz de feijão (o "de" é muito importante nas descrições gastronômicas locais), o visitante há de se sentir longe das polêmicas envolvendo a tocha olímpica ou dos últimos movimentos das eleições norte-americanas. Mas também esse é um engano.

A constatação virá de maneira inesperada. Pode ser ao se dar de cara com um episódio de "Seinfeld" no meio de uma noite no hotel ("Estou? Aqui é o Jerry", diz ele ao telefone, segundo a legendagem) ou ao se tropeçar no "McDonald's Imperial" no caminho de uma das livrarias mais antigas de Portugal, no Porto. Como em todo lugar do mundo, os Estados Unidos estão logo ali, ao dobrar de uma esquina, como a reforçar o ditado em inglês de que "Você pode correr, mas não pode se esconder".

Nesse sentido, não há "produto" americano mais valorizado hoje em dia do que Barack Obama. O pré-candidato democrata é hoje o equivalente atual dos cigarros Marlboro, dos chicletes e dos filmes de Hollywood do pós-Segunda Guerra. A mera presença do senador na corrida pela Casa Branca faz mais para recuperar a imagem dos EUA, destruída em sete anos de Bush, do que milhares de Mickeys.

Em poucos dias no país, li impressões de diferentes analistas sobre o fato de o primeiro-ministro português, José Sócrates (que usou a frase "Sim, nós podemos" no seu balanço de três anos de poder), e o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, disputarem o posto de "o Obama português". O caráter messiânico da candidatura do senador norte-americano serviria muito aos costumes locais.

"A 'obamania' portuguesa não se limita só a idolatrar o verdadeiro Obama. Deseja também a pronta invenção do Obama português", escreveu no "Diário de Notícias" o colunista Pedro Lomba. "Até os taxistas com quem já falei, que costumavam suplicar por um 'novo' Salazar, imploram agora pelo nosso Obama."

Sergio Davila

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2 Comments

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2 responses to “do Blog do Sergio Davila

  1. Contrera

    lembro do sérgio desde o curso da abril. ele era chato, pacas. melhorou (eu, nem tanto). hoje tudo é de todos, mas nada é o mesmo em lugar algum. então, NADA É NADA.
    ahahah
    carinhos
    contrera

  2. Sandra

    Casa de Repouso Haja Deus????? Só perde para o nome português do vaga-lume!!!
    Gerald, você deve ter alguma ascendência portuguesa!!!!

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