Contardo redescobre Italia em Ficcao: o romance eh brilhante!

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma queixa sempre acompanhou as despedidas do psicanalista Contardo Calligaris, 59, colunista da Folha, de seu pai, Giuseppe, morto em 1995: "Pena, não tivemos tempo para falar", repetia o pai. Em sua primeira investida na ficção em livro, o romance "O Conto do Amor", o escritor reencontra seu pai e dedica todo o primeiro capítulo a uma passagem de suas biografias, um raro encontro em que Giuseppe, avesso a falar de si, falou. Um enigma.
Perto de morrer, Giuseppe -ou Pino Antonini, seu "duplo" no romance- faz ao filho Carlo -alter ego do autor- uma revelação com tintas místicas, que não encontravam paralelo no histórico agnóstico daquele homem, um médico. Numa visita a um convento no Monte Oliveto Maggiore, na Toscana, na sua juventude, o pai teria intuído que fora, numa outra vida, ajudante dos pintores Luca Signorelli e Giovanni Antonio Bazzi, o Sodoma, autores dos afrescos que narram a vida de são Bento nas paredes do claustro.
Contardo suspeitava que havia alguma pista nos diários deixados pelo pai, escritos entre 1933 e 1994, e que hoje ocupam parte da biblioteca de seu consultório. O escritor, no entanto, levou mais de dez anos para voltar ao assunto. E na forma de uma ficção.
"O romance foi escrito a partir da questão "o que eu queria fazer com os diários do meu pai?" E certamente foi uma maneira de passar um tempo com ele na minha cabeça, de revê-lo", conta Contardo, que entre 2006 e 2007 fez viagens à região da Toscana, para reconhecer o que chama de as "locações" de seu livro e fotografar os afrescos de Sodoma, alguns deles incluídos na edição.
A viagem foi uma redescoberta da Itália, seu país natal, adotado como lar de fato em períodos relativamente curtos de sua vida. Aos 14 anos, Contardo fugiu de casa, em Milão, passando um ano e meio em Londres, sem dar notícias.
"Fiz a minha vida completamente fora de lá, por duas razões. Uma razão profunda é a dificuldade de ser filho de uma pessoa perseguida por uma ditadura. A dificuldade de se identificar com um país que quis ferrenhamente matar o meu pai", diz Contardo. "A outra, foi o tempo de luto, porque meus pais morreram num período curto, de seis meses."
Do segundo capítulo em diante, salvo referências à biografia de Giuseppe, como sua militância antifascista e sua paixão pela arte da Renascença italiana, Contardo encontrou na imaginação, numa história de amor, a solução para o enigma deixado pelo pai.
"Não estou muito mais avançado do que o protagonista. Nem cheguei a uma conclusão que repute como completamente nova. Mas talvez à conclusão de que a vida dele tenha sido, no melhor sentido da palavra, uma aventura. E com o livro, acho que amadureci minha vontade de escrever ficção, sobretudo. Porque, quanto à investigação do enigma propriamente dita, não esperava que iria descobrir muita coisa."

50 anos de ficção
Contardo diz que sempre quis escrever ficção, desde o primeiro conto, "O Homem do Pacífico", escrito aos 9 anos, até um romance que flerta com a literatura beatnik, feito aos 18, ambos nunca publicados.
O autor até já prepara outro romance. O protagonista deve ser o mesmo de "O Conto do Amor". E o ponto de partida, novamente autobiográfico, numa história de amor vivida em Paris, nos anos 70.
"Todos esses 50 anos de produção escrita, de ensaios à crítica literária e de artes, de textos sobre psicanálise à crônica semanal, posso considerar tudo um longo desvio. E, ao mesmo tempo, um aprendizado."

9 Comments

Filed under Sem categoria

9 responses to “Contardo redescobre Italia em Ficcao: o romance eh brilhante!

  1. Contrera

    eis que conto o seguinte. um dia opinei sobre um artigo do contardo, por email. ele respondeu. elegante. gostei. mas um dia encontrei num ensaio do gerald. não gosto de conhecer pessoas pessoalmente, sabem. saí. aí, durante as satyrianas, vi o contardo sozinho na rua. difícil, aliás, porque havia milhões de TRANSEÚNTES e transeviaduntes na rua. mas gostei. não tem medo de parecer ridículo – e parecia. como aliás eu geralmente pareço.
    não gosto de gente conhecida lançando livros sobre si mesmas. é como lambuzar-se na própria festa – prefiro os penetras. mas, novamente, contrário a mim mesmo, gosto disso que leio. pois remete a buscar o nó que nos impede de ser inteiros, um nó que não está mais em nós. como em mim está em meus pais, em meu ex-país, etc. ajuda que ele tinha tido culhão, aos 14 anos, de escapar de tudo o que o oprimia. mas não importa muito. importa que isso que ele faz ajuda a recuperar o ser humano em nós. justo agora, que ele não mais existe. ou existe? ahahah carinho

  2. Maria Julia do Amaral Antunes] [Sampa

    Meu caro Fabio?Quem sabe?
    ou Aranldo Antunes ? Quem sabe?

  3. Valéria] [Rio de Dengueiro

    “o que eu queria fazer com os diários do meu pai?” E certamente foi uma maneira de passar um tempo com ele na minha cabeça, de ‘RE-vê-lo'”. Isso é mto bacana, até pq um diário já uma maneira de a gente se ver, desver e re-ver, e qndo um outro lê, no caso o filho, quantos pais e pessoas neste pai o filho ali ñ viu epode ver? A gente ñ conhece ninguém, a gente ronda, pensa q vê, desvê, revê, pré ou pós-vê. “Quanto à investigação do enigma propriamente dito, não esperava que iria descobrir muita coisa.” Mas passou um tempo com ele na cabeça e se descobriu uma vontade de escrever ficção.
    É bom saber destes encontros.
    bjim

  4. Valéria] [Rio de Dengueiro

    Lembrei-me de uma frase q li esta semana ao ver o último parágrafo do texto do Contardo: ” o que são desvios para os outros, são para mim os dados que determinam a minha rota” (Benjamim – Passagens).
    Quer porque esta frase me inunda, quer porque de alguma forma os textos dialogam, deixo aqui esta gota q vira mar dentro de mim.
    inté,
    Valéria

  5. Sandra

    Faz tempo que eu não chorava… Texto lindo… Tocou lá no fundo da minha alma…

  6. Mau

    Parabens ao Contardo – eu bem sei qto dificil é escrever sobre nós atraves da ficção – quer dizer – todos nós daqui sabemos.

  7. fabio] [são paulo

    Por acaso você é parente do Antunes Filho??? Maria Julia??!!!

  8. Maria Julia do Amaral Antunes] [São Paulo

    Gerald,
    Lendo o conteúdo do seu blog, fiquei muito impressionada com a sua personalidade forte e ativa. Espero que você receba, ainda em sua vida todos as recompensas que você merece. Continue o seu trabalho com muita determinação e pensamento positivo.
    abraços,
    Maria Julia Antunes

  9. Aquele dia das satyrinas estávamos todos ridículos, andando por ali naquele lugar escuro, como ratos.
    Tb me senti ridícula, havia uma visibilidade torta e torpe ali.
    Mas gostei do evento, nada contra, viu?
    é pessoal o que senti, o C vai entender, ou não.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s