Tendecias e Debates, na Folha de S Paulo

A farsa de Lula e Bush


2005 foi um ano de dramaturgia péssima. A popularidade de Bush, assim como a de Lula, despencou, faliu


GERALD THOMAS

A cho que nunca me esquecerei do dia em que vinha andando pela rua 23 com a segunda avenida, em Nova York, quando uma mão enorme e pesada pousa no meu ombro direito e uma voz berra: "Stop!". Eu congelo na hora, sem saber do que se trata. Em questão de um segundo, dez viaturas policiais estavam lá, vasculhando tudo e todos.
Era o dia em que Londres havia sofrido um ataque em seu metrô, dia 7 de julho, e o gosto na minha boca me remeteu aos momentos que se seguiram ao colapso das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, que vi caírem da minha janela, quando morava em Williamsburg, na beira do East River. Agora, moro do outro lado, no mesmo East River, em Manhattan e… aquela mão? O que queria me dizer com aquele "Stop!"? Queria que eu parasse o ano prematuramente? Não, certamente não. 2005 foi um ano de dramaturgia péssima.
A popularidade de Bush, assim como a de Lula, despencou, faliu.
2005 foi o espelho quebrado dos anos anteriores, autista, o ano avesso. Nos EUA, a população tomou consciência da quantidade de mortos no Iraque e da insurgência crescente. No Brasil, os escândalos surgiram com a força de um furacão Katrina. Um dilúvio soava e colocava corruptos no banco dos réus e revelava a total ausência ou cinismo absoluto de Lula (um Hamlet tontinho ou, talvez pior, um rei Claudius? Neste caso, um assassino frio, cruel e delirante).
Exatamente como nos EUA: Bush tentava ignorar os escândalos políticos à sua volta até meados de dezembro, quando finalmente admitiu erros no que diz respeito ao Iraque. É a primeira vez que admite um erro. Mas é porque quer se tornar vulnerável para poder reeleger o Patriot Act, esse que torna o país uma miniditadura orwelliana, justamente agora que os escândalos sobre a espionagem e grampos sobre qualquer cidadão americano explodem na mídia.
E então? Aquela mão que me parava com qual autoridade? Da paranóia e da farsa. Combinação perigosa. Já vimos isso. Serei mais preciso: Alemanha pré-guerra. A palavra é autonegação. Tanto Bush como Lula se negam a ver o fracasso à sua volta. Melhor: se negam a assumi-lo, já que o tango político está arrítmico e ninguém mais sabe dançá-lo.
Karl Rove, braço direito do presidente, está em apuros. Praticamente sentado no banco dos réus por ter revelado a identidade de uma espiã feminina da CIA na África, Rove está assim como José Dirceu esteve faz pouco tempo. O Partido Republicano começa a se dividir, assim como o PT. Motivos diferentes, claro. Aqui não foi o "mensalão": a divisão fica por conta do Iraque e da tortura em presos de guerra, que começam a irritar os mais puritanos senadores.
Bush, assim com Lula, tem esse incrível dom de sair pela tangente quando sua popularidade cai: são dois canastrões que deixam a cena e vão se refrescar na coxia enquanto algum coadjuvante toma o palco: esquecem que o teatro político também é feito de diálogo.
"A economia vai bem!" é a frase usada pelos dois, como se numa deixa teatral, no mesmo momento… como se fossem sincronizados por satélite. Mas será que vai mesmo? Não sou economista, mas já ouvi que a economia, assim como nosso sistema gastrointestinal, é subjetivo e não há maneiras imediatas de julgá-lo, a não ser que haja um tumor à vista. Com um gasto diário de US$ 60 milhões com a chamada "Guerra no Iraque", o tumor está começando a aparecer.
A verdade é que estamos sendo governados por administrações paranóicas e que estão na contra-ofensiva. E isso pode ser tão perigoso quanto qualquer ataque terrorista.
Com aquele sorrisinho de matar, Bush foi lento em sua resposta quando Nova Orleans foi devastada pelo furacão Katrina. "Questões raciais", berravam políticos e artistas por todos os cantos da grande águia. Mas, assim como já existe uma certa impotência quando se quer falar sobre Lula e sua administração, existe a mesma impotência em criticar Bush: já não existem mais adjetivos. Esgotaram-se todos. Agora, fica-se pasmo diante da TV, já que os dois presidentes têm algo em comum: adoram viajar!
Pasmo ou irado, essa é a sensação deixada por eles e seus desfeitos, posando de alienados, sorrindo, sempre sorrindo. Nada prova nada!
Foi quase como um "timing" teatral. Se ensaiado, não teria dado mais certo. Lula, no Brasil, com os escândalos do "mensalão", CPIs pra todos os lados, e Bush envolvido em escândalos que incluíam quase todos de sua administração e expoentes do Partido Republicano. Olho pro Bono e o casal Bill Gates como as personalidades do ano na capa da "Time" e vejo que os EUA começam a entrar em processo de transição: ou seja, Bush viverá um 2006 nada fácil, uma resistência começa a se organizar.
Aquela mão no meu ombro? O que ela queria? Graficamente, 2005, ela mais se parecia com as garras de um papagaio plantado no meu ombro, berrando no meu ouvido: "Stop: fim do primeiro ato!". Mande baixar o pano, sr. diretor! Mas, com as mãos ao alto, como se num assalto, não sou o dono do palco: sou um dos espectadores numa enorme farsa de horrores!


Gerald Thomasé diretor de teatro.

17 Comments

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17 responses to “Tendecias e Debates, na Folha de S Paulo

  1. ROGER] [ara-se

    ARACAJU 170806
    acho vcs intelectuais uns bostas .egoistas no pensar querem impor de quela a dentro o pensar isso ocorre desde os primodios do mundo .medindo e formando o pensar humano……
    todos tem vergonha de rejeitar o que é feito com um esmero mental sofisticado ( dit como d equlidade ) se essa sofisticaçao na arte e pensar de vc intelectuais fosem importante….o mundo n~taria do jeito que se encontra !!!!!!!!!!!!!1 jpoga fora todas religuias de literatura que o ser humano passa e vive muito bem n~e´essencia pra sobrevivencia humana esses sfisticaçao na musica literatura etc .tudo isso n~passa de vaidade e egoismo……..n~suporto religião nem livros ditos maravilha :kafik e amosca clarice lispectur vão tudo tomar no seu cú que o senor mostrou ……..o ser humano precisa ser escutado e estimulado na sua formação…… vc que vc tira onda com a cara dos bobos fazendo suas peças que por vaidade só vc entende ……..
    no mais obrigado pela atencao :]
    roger rocha

    RESPOSTA:
    atenção dispensada. biiiiiiip.

  2. Joana Silveira] [venhedos

    Gerald thomas, o que vocÊ pensa sobre o polêmico livro “Os fantásticos contos do destino”, do escritor Érito Santos, é livro irônico e cáustico.

  3. paula] [poa-rs

    Mtu lindo o seu blog!!
    Parabens!

  4. Bill] [New York

    O Sr. foi muito feliz no seu comentario a respeito de fim de um ciclo e comeco de uma nova era assustadora neste grande pais da America do Norte.
    Parabens pelo texto!

  5. JACKSON SALA.] [RJ RJ

    Necessito enviar mensagem pessoal importante ao GERALD THOMAS.
    Por gentileza confirmar para qual endereço de e-mail e devo enviar.
    Muito obrigado e Feliz 2006!
    Abraços,
    JACKSON SALA.
    jacksonsala@yahoo.com.br

  6. Brasileirada

    Uau, todas as mensagens concordam com essa comparação entre Lula e um assassino como Bush?? Uma comparação superficial demais, diga-se de passagem. O que? O Bill Gates?? O rei do monopólio é agora símbolo de mudança???????uauauauau…. Ah, quero ver a renda dos blogueiros abaixo…todos de esquerda, com certeza!! Todos dariam suas casas pela causa maior da igualdade!!!!HAHAHAHAHA!!!!! Ops…discordei de novo…vamos ver…

  7. Martha Ribeiro] [Niterói-RJ

    A paranóia deve ser a irmã mais velha (ou a mãe incestuosa) do fascismo. No meio de tantos agenciamentos promovidos por esta máquina-carne(cane)-mundo, somos como a marionete de Kleist apenas nos movimentando como parte de uma determinada máquina, algo assim como um homem-ferramenta-animal-coisa.
    Beijo no coração

  8. Vera Cardoni

    Me pergunto quais seriam as possibilidades para 2006. O que esperar passivamente,o que fazer, onde buscar. Um misto de indiferança com fatalidade. No Brasil, o por vir é muito triste, menos triste do que esse sentimento de perda e vazio de quem acreditou no governo Lula, mais por reforçar a ausência de possibilidades.Sabemos muito bem que são Hamlet,Rei Lear, Capitão Rodrigo Cambará, Capéuzinho Vermelho, Saci Pererê, o resto é dúvida, receio, desconfiança.

  9. ernani] [são josé do rio preto , sp

    Ótimo texto , que nos remete ao Diário da Corte , do Francis …

  10. Tony

    Gerald,
    Sua clarividência é acima de tudo simples. O paralelo proposto é de uma grandeza fundamental. Primordial. Só quem constrói imagens da mais pura sensibilidade nos palcos do mundo e da vida poderia acalentar nossos olhos com a verdade suprema e maravilhosa. Como diria Borges: “O Cárcere é profundo e de pedra: sua forma, a de um hemisfério quase perfeito, embora o piso (também de pedra) seja algo menor que um círculo máximo, fato que de algum modo agrava os sentimentos de opressão e grandeza”. Thomaz, iluminou as nossa mentes ávidas por vida. Vegetable man, where are you?

  11. Gabriel Quaresma] [Atibaia-SP / Brasil

    sou não, somos espectadores numa enorme farsa de horrores!

  12. Antonio

    essa mão, da qual você fala, continua onipresente amigo, e pousa nos ombros de todos nós. É um papagaio de pirata que deve continuar o ato circense surrealista também em 2006. Leider…

  13. Rodrigo Trasferetti] [São Paulo

    Não pare Gerald…
    Adoro suas criticas, e percebo qwue a cada dia temos que viver mais intensamente, viver e fazer nossa arte de representar, colocar no palco tudo aqui que as pessoas tem que eprceberem, usar tbm nosso eatro, nosso cinema e nossa tv como um gesto politico. Não para um ditadura e guerra como o mundo vive hoje, mas sim para fazer com que as pessoas vievem, fazer com que as pessoas saem do teatro com pelo menos um ponto de interrogação em suas mentes, ai esta nosso trabalho, usar nosso poder de verbo para mudar o mundo.
    Aqui tens um grande apoio de um adimirador de seu trabalho, que sigo nossa arte cada dia mais com mais afinco. esde criança cresci ouvindo falar de vc pela boca de minha tia, Marlene Fortuna, e de toda minha familia, que me ajudaram a ser o que sou hj um ator, não meramente de ser ator, mas tbm de realizar o caracter e a cultura de nosos povo.
    Tenho grande vontade de um dia lhe conhecer e quem sabe trabalhar contigo…
    Forte abraço

  14. Mau Fonseca

    A trilha sonora para o mundo, que eu sinto deveria ser
    “My body lies motionless
    upon the kitchen´s floor
    the Earth has died
    the World at rest
    2084” – Ayreon, 1998, Arjen A. Lucassen
    AS palavras desse holandes louco parecem estampadas nesse mundo insólito.

  15. Esdra

    Don t Stop Gerald!

  16. Giselle] [Florianópolis, Sta Catarina - BRASIL

    Difícil mesmo é reconstruir sonhos….

  17. Rodrigo Contrera] [sampa

    pois é: ” a economia vai bem “. isso parece justificar tudo.
    lembra aqueles que dizem ” mas não SÓ judeus morreram na 2a Guerra “.
    ainda a economia: TODO MUNDO sabe no que é que isso vai dar. uma potência armada na mão de uma cada vez mais forte potência econômica, a china que agita o mundo. ou do japão, que compra os imóveis da costa leste. ah, sei lá.
    Contrera

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