25 anos sem John Lennon

São Paulo, quinta-feira, 08 de dezembro de 2005

MEMÓRIA

Vinte e cinco anos sem John Lennon

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

É justamente a metade da minha vida sem essa figura que só parece crescer em todos os sentidos, sejam eles proféticos, musicais e filosóficos. Guru? Não, acho que não chegara a tanto na história, se olharmos, digamos, 50 anos pra frente. Mas um grande gênio, sem dúvida. Aliás, isso ele sempre foi.
Mas, no meu caso, a história do dia de sua morte foi extremamente peculiar e, como se diz em inglês, "spooky", ou seja, assombrosa. É que eu havia trazido do Brasil o ex-preso político e poeta Alex Polari de Alverga e sua mulher. Alex tinha um desejo enorme de conhecer o lugar onde Lennon morava, já que, nos anos de sua prisão, a música e os versos de Lennon lhe faziam companhia, lhe davam inspiração e esperança.
Naquela época, eu tinha um daqueles carros enormes (como todos os carros americanos da época: um Buick Regal, grande demais, metal demais sobrando pra todos os lados) e estava por acaso de mudança de um apartamento para outro. Deixei o casal Polari de Alverga alojado na Lexington Avenue com rua 23, enquanto a minha tralha já estava toda no Village, na Mercer Street.
Bem, na tarde do dia 8 de dezembro (tinha de ser naquele dia), levei os dois pra fotografá-los na frente do Dakota, o prédio onde Lennon foi o primeiro autodeclarado "house husband" e onde posou nu ao lado de Yoko para a fotógrafa Annie Leibovitz, ex-namorada da designer brasileira Bia Feitler e, mais tarde, ex-namorada de Susan Sontag. Foi lá também que ele aguardou o veredicto de inocente na questão da maconha, que o advogado Steven Weinberg conseguiu ganhar na corte da Center Street.
Fizemos aquela bela e embaraçosa sessão de fotos tipicamente turísticas, com o Alex em primeiro plano e o primeiro andar do Dakota bem pertinho, em segundo. Percebo agora que Mark David Chapman, o assassino, talvez até apareça nessas fotos, pois devia estar rondando por lá. Não sei o que foi feito dessas fotos, já que o poeta e ex-preso político se dedicou à causa do Santo Daime e hoje mora em Visconde de Mauá, no alto das montanhas alpinas brasileiras, e não quer muito contato com o mundo.
O fato é que, ao final de um longo dia, deixei os Polari no apartamento da Lexington e rumei para a Mercer Street. Como todo aficionado do rock, Nova York tinha um endereço certo: a rádio WNEW, ou seja, Scott Muny (morto recentemente) e sua 102,7, que eu colocava no máximo do volume quando estava sozinho no carro.
A Lexington com a 23 é distante da Mercer com a rua 4 exatamente 19 quarteirões. Quando eu parei num farol da rua 14 com a Terceira Avenida, uma voz ofegante pega o microfone e diz: "John Lennon has been shot. We don't know what the conditions are yet… (algo como: "Atiraram em John Lennon. Ainda não sabemos quais as condições…")
Parei o carro. Pensei no dia que tivemos. Pensei em dar meia-volta e alertar os Polari de Alverga. Pensei melhor. Não. Melhor seguir para casa. Cinco ou seis quarteirões depois, um Scott Muny desesperado e aos prantos pega o microfone e diz: "John Lennon is dead". Minha memória pode estar me traindo. Afinal, faz muito tempo, e eu estava extremamente abalado.
Fiquei completamente paralisado no início. Mas, minutos depois, peguei o carro (fazia muito frio, e eu estava de camiseta e uma mera jaqueta de couro marrom), cruzei a cidade e rumei para Upper Westside, de volta para o Dakota, onde encontrei uma boa centena de pessoas desoladas.
Bom, o resto da história todo mundo sabe.
O que ainda não foi muito dito é o quanto Lennon foi influente não somente na música, mas em sua parceria com a Yoko, em todas as artes. Antes desse momento atual, louco e ridículo, em que debilóides como Paris Hilton e Cicarellis viram celebridades por não serem nada, Lennon e Yoko podiam ser vistos com freqüência nas ruas de um SoHo que não é esse que está aí, transformado em loja de roupa de grife. Ainda eram lofts de artistas como Julian Schnabel e Nam June Paik, galerias como The Kitchen, Performing Garage e a de Hélio Oiticica (esse, excepcionalmente na Christopher Street, em West Village) e gente que "ousava" atravessar a Houston Street, território neutro e escuro onde tudo podia acontecer.
Lennon era profético. Seu Strawberry Fields ainda está lá, no Central Park, e é visitado por milhares de turistas todos os anos. Mas não é só isso. Os nova-iorquinos também vão lá, se emocionam, depositam flores, meditam, assim como fazem com a estátua de Ghandi em Tavistock Square, em Londres.
Até hoje ninguém sabe explicar ou nem sequer se conforma com o que aconteceu naquele dia. Eu estava lá. Julian Beck, o ator que eu dirigi, fundador do Living Theater, um pouco antes de sua morte me disse, enquanto ainda estávamos em cartaz com "That Time", de Samuel Beckett: "Eu acho que se eu tivesse optado pela música, teria sido algo parecido com ele." Julian morreu cinco anos depois. Lennon expressou admiração pelo Living Theater.
Quando penso nessas memórias e o valor que a vida tinha e a qualidade que a arte tinha, sua delicadeza, sua sutileza, eu olho em volta, olho com nojo e mais do que nunca me lembro da letra e música de uma canção que de início não me causou muito impacto, mas que, devido ao contexto mundial atual, me leva aos prantos: "Imagine".

Gerald Thomas é diretor de teatro

9 Comments

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9 responses to “25 anos sem John Lennon

  1. Padressa

    Belo texto. Eu não poderia deixar de ler, já que vim te visitar, hoje.
    Você descreve bem quando diz: ” o valor que a vida tinha e a qualidade que a arte tinha, sua delicadeza, sua sutileza”…
    Eu gosto de você. E acho que se parece com John Lennon. Sempre achei.
    Bjus

  2. Ana

    Muito gostoso e saudosista o texto, também tenho saudades, principalmente de artístas desprendidos de mídia, holofotes e + zeros em suas contas, artístas como Lennon, janis joplin, Cássia Eller, Cazuza…que gostavam de poesia e eram poetas por natureza. Um beijo.

  3. Daniel] [MG

    Quero dizer que gostei muito do texto! Comecei a “conhecer” Lennon a puco tempo; alias, tenho apenas 17 anos nesta. Aproveitando, quero dizer que (creio) não cair no seu blog por acaso. É que estava tentando criar o meu (e não consegui) e encontrei este. Vi você apenas uma vez no Jô, e fiquei admirado. Tanto pelo seu estilo como por seu jeito e seu trabalho. Faço teatro amador e sou apaixonado por esta arte. Por isso me interessei tanto por sua entrevista… Esta de parabéns pelo blog e por sua entrega ao seu trabalho que é maravilhoso. Saudaçoes

  4. Rodrigo Contrera] [Sampa, SP, Brasil

    adorável mas imensamente triste teu artigo sobre Lennon.
    lamento muitas coisas. aqui, uma das principais é o fato de eu não haver estado realmente “vivo” durante a vida e morte do besouro. acho que já àquela época eu vivia uma certa distância a tudo. meu hit, menor, sim, é I’m losing you.
    love
    Contrera

  5. Vera Cardoni] [Porto Alegre

    Que belo texto.Emocionante.Um ponto Aleph, em algum lugar te acompanha.Tantos testemunhos, histórias e inventos prá contar.Imagine!

  6. Fabio de Castro] [SP

    Cara, que belo texto. E que dó, que raiva, dá vontade de chorar. Aliás, porque não aparece um Chapman para atirar nas tais Paris Hiltons e Ciccarelis, hein? Que saco essas celebridades de hoje! Eu era moleque, mas também tenho consciência de que a arte era mais sensível e mais profunda.

  7. Flavia] [Brasilia - DF

    Eu tinha cinco anos quando ele morreu. Não consigo lembrar de todos os detalhes, mas sabia que alguém importante tinha ido embora.
    “Imagine” é uma das músicas mais lindas. Também choro quando a ouço. Hoje o dia está triste. Para falar a verdade, muito triste.

  8. ernani] [são josé do rio preto , sp

    Brilhante e pungente artigo , meio à la Paulo Francis (outro q deixou saudade!) . Tbém escutei a notícia da morte do Lennon no rádio do carro , em SP , qdo pré-adolescente . Chorei ao ouvir “Imagine” by Madonna na Reinvention Tour . Geraldianos , entrem no meu blig : http://drernani.blig.ig.com.br

  9. Luís Guilherme Arreguy] [Pouso Alegre, MG

    Falou Geraldo,
    Isso aí! Lennon era tudo isso e mais alguma coisa.
    Quando o Paulo Leminsky fez a tradução do texto non sense do Lennon, eu não botei fé.
    Mas depois descobri que o Leminsky era genial e conseguiu fazer o impossível.
    Acredito que você deve conhecer, se não, fiz uma seleção e disponibilizei on-line no seguinte endereço:
    http://www.geocities.com/girafa7/wumberlog.html
    (Click na imagem para continuar)
    Valeu!
    Imagine all the people living life in peace!
    Luís Guilherme
    Pouso Alegre

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