Trindade Irreverente

Rivais ferrenhos, Antunes Filho, Zé Celso Martinez e Gerald Thomas estão em cartaz com novas peças já consideradas marcos em suas carreiras
por Ana Aranha

» Entrevistas exclusivas com os diretores Antunes Filho, Zé Celso e Gerald Thomas

Os palcos de São Paulo estão em ebulição. O mês de maio chega ao fim com os holofotes divididos sobre três dos mais consagrados diretores de teatro do Brasil – e todos com obras que acabaram de sair do forno. Antunes Filho transforma Antígona, de Sófocles, numa tragédia limpa e simples. José Celso Martinez Corrêa, cheio de paralelos com os dias de hoje, faz uma leitura libertária de "A Luta", terceira parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha. E Gerald Thomas, com um texto próprio que ataca mídia, política e decadência, bota o ator Marco Nanini para rodopiar em Um Circo de Rins e Fígados.

É o que há de melhor nos palcos paulistas. A ''trindade'' em cartaz já deixou sua marca na história e se mostra ainda afiadíssima. Os três diretores não cultivam relações amistosas. Nem sequer gostam de falar um dos outros e garantem que não freqüentam as platéias alheias. Antunes Filho despista e atribui a distância ao estilo de interação com o público adotado pelo Oficina de Zé Celso: ''Se ele souber que estou lá, começa a me chamar. Eu morro de vergonha''. Gerald Thomas é mais radical: ''No dia que o taxista não dirige, ele pega táxi? Eu não gosto, não tenho tempo e não vou ao teatro'', afirma. ''Apenas uso o palco como veículo para expressar minhas idéias.''Apesar da surda concorrência, entretanto, os três diretores se assemelham pelo teatro radical que propõem.

Antunes, de 75 anos, escolheu Baco para ser o condutor da história de Antígona, a heroína que prefere ser condenada à morte a obedecer aos desmandos do rei e deixar o corpo de seu irmão apodrecer sem rituais póstumos. Baco começa a peça ressuscitando os personagens. Tira dos túmulos Antígona, Creonte e Ismene, que viverão a tragédia. ''Quero que o público vá se identificando com o arquétipo de um conflito experimentado constantemente pelos homens, da dialética entre liberdade e sobrevivência'', diz o diretor. Toda a trama é pontuada por uma dança erótica e mórbida de um grupo de bacantes.

A adaptação de Antunes já é considerada um dos pontos altos de sua carreira. Para o crítico Sebastião Milaré, essa montagem representa o ápice de uma linguagem que vinha sendo lapidada havia anos. ''É uma busca permanente e um aprofundamento constante na essência da tragédia'', acredita Milaré.

Criador do Grupo Pau Brasil, Antunes segue meticuloso no trabalho com seus atores. A técnica sempre foi sua ferramenta preferida. Graças a ela, Antunes consegue que seus atores desenvolvam uma nova maneira de colocação de voz, quase cantada, que ele chama de ''ressonância''. ''Estou querendo dar uma contribuição à cultura teatral brasileira'', diz. Fã dos clássicos, o diretor enxugou a tragédia até que coubesse nos modernos 50 minutos de apresentação – tudo para atrair o público jovem e mostrar que teatro grego pode ser atual.

Consagrados, olham com lentes diferentes a
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3 Comments

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3 responses to “Trindade Irreverente

  1. Angelo Macedo] [Guarulhos/SP/Brasil

    Marcos: vc arrebentou na sua definição do Gerald. Valeu!
    Angelo Macedo

  2. Marcos

    só o gerald nessa santíssima trindade consegue ter a acidez violenta de um garoto que surge para desregular nossos intestinos. acaba com nossas entranhas. continue acabando conosco, gerald.

  3. Cláudio Marinho] [São Paulo

    Olá Gerald Thomas
    Sou editor de um site direcionado ao público teatral de São Paulo, que terá sua primeira edição on line no dia 1 de julho. Solicitei entrevista através de sua assessoria de imprensa e a resposta que tive é que não é possível porque vc está fora do Brasil.Imaginei isto porque sei que vc tem outros compromissos no exterior.
    Mas com tanta tecnologia, difícil é ter limite para a comunicação. Vc teria um tempinho para responder algumas perguntas por e-mail?
    Abraço
    Cláudio Marinho

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