Afro Reggae

"12 anos de luta contra os preconceitos e a violencia"

Na noite de terca feira fez-se um clarao de luz belissima, tao bela quanto a da Genesis, sobre o Canecao, aqui no Rio. Eh que o grupo cultural Afro-Reggae estava comemorando doze anos de existencia. Essa luz eh mais que apropriada para o momento, ja que o grupo liderado por Junior conseguiu o que nenhum outro conseguiu no Brasil: transformou a violencia em paz, o narcotrafico em "clean art".

Refletida em Ghandi ou em Nelson Mandela (talvez), essa gente linda, iluminada, transformou, nessa decada e pouco o pessoal marginalizado em artistas. Ah, nao so isso. Transformou o que eh mais importante: elevou a auto estima de pessoas que (nao faz muito tempo) se encontravam no meio de escombros, de chacinas (como Vigario Geral por exemplo), e tudo sem amarguras, sem magoas, com muita inteligencia, muita sabedoria e muitissimo suor e trabalho.

"Troquei as fraldas desses meninos" disse o ministro Gilberto Gil, no palco do Canecao, ovacionado. Era noite de entrega de premios. Era noite em que o Afro Reggae entregava o seu proprio premio "Orilaxe" aqueles que, na opiniao do grupo, mais de destacaram no ano que passou.

E que emocao foi! Porque? "Porque esse pais eh racista, e poucos brasileiros tem a coragem de admiti-lo ou de enxerga-lo", dizia emocionado Ivanir dos Santos, um dos homenageados. Quem me levou as lagrimas, ao receber seu premio foi a jornalista Flavia Oliveira. Negra e oriunda do bairro pobre de Iraja (um dos bairros onde o Afro Reggae mais atua) o impacto do premio pra ela significava uma "longa volta pra casa, uma luta imensa, racial e social. "Agora faco parte da familia"…..e pausou segurando o choro.

Paul Heritage, o ingles que faz teatro nas prisoes tambem estava altamente emocionado e agradeceu o Brasil por te-lo acolhido tao bem. A lista de premiados eh grande e termina, evidentemente com Gilberto Gil, contra o qual eu achei que iria me rebelar – ja que o estado putrefacto do teatro nesse pais continua (ou seja, nada mudou desde que publiquei aqui nessa Folha, em 4 de outubro ultimo "Tanto Bush quanto Gil odeiam o teatro").

No entanto, Gil me encantou, ja que mostrou o seu outro lado e num outro contexto. Ou seja, se o ministro da cultura apoia Junior e seu iluminado grupo, esta fazendo a coisa certa, mesmo que esteja tropecando em alguns buracos aqui e ali. Quem nao esta? So sei que eu me peguei aplaudindo Gil de pe.

Zuenir Ventura, outro mentor do grupo estava sentado na plateia todo orgulhoso, pois o papel dele com esse pessoal eh simplesmente enorme. Ah, ja ia me esquecendo do espetaculo em si. Caramba! Que show! Alem de fazerem um bem social enorme e reverterem a onda do crime nessa cidade, entra no palco o Afro-Lata e arraza a ponto de levar a plateia ao delirio. Eh o Stomp brasileiro, melhor que o original. E vem o grupo das meninas. E, quando menos se espera, entra um grupo da Policia Militar de Minas Gerais com uma performance hilaria que misturava olodum com o Full Monty. A plateia dessa vez subiu nas cadeiras e ovacionou.

So mesmo o Afro-Reggae pra quebrar os preconceitos e as barreiras: tem negro e tem quase negro, tem ex-marginal e tem Policia fazendo strip tease. So nao tem uma coisa: violencia. Em nenhum dos seus eventos, as Conexoes Urbanas, ocorrem atos de violencia. E isso nas regioes conhecidas pelas piores trocas de tiros no cotidiano carioca.

O que importa mesmo eh a ideologia que esta se formando em torno deles e, que se vingasse em todo Brasil, esse pais seria realmente o Paraiso. Eu escrevo esse texto assim como sai do Canecao: aos prantos. Nao eh todo dia em que se ve a injustica vingada e celebrada e virando festa.

Gerald Thomas

7 Comments

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7 responses to “Afro Reggae

  1. Nivia ] [Brasil

    Gerald, apasar de não lhe conhecer,e de discordar de muitas das suas idéias colocadas neste blog, fiquei surpresa, qdo vi que ainda há quem pensa; neste mundo com tantas pessoas manufaturadas pela mídia (muitas vezes nem por culpa delas mesmas, mas sim da falta de oportunidades), pela 1º vez, tive vontade de ler um blog na íntegra!

  2. Atila Roque] [USA

    Querido Gerald,
    O AfroREggae emociona pela história de coragem e de cidadania que aqueles meninos e meninas, moças e rapazes, homens e mulheres, quase todos pretos ou quase pretos, como diria Caetano, vem oferecendo ao mundo ao longo dos últimos 10 anos. É por causa deles que vale à pena não desesperar. Mesmo quando o silêncio depois de mais uma chacina voltar a imperar. Obrigado Júnior, Negueba, Ando, Edélcio, Marcia e toda a trupe do AfroReggae. Valeu Gerald por esse artigo. Nos vemos em breve, mais uma vez no Rio.

  3. Angelina

    Oi, Gerald,
    Infelizmente, tivemos em cidades
    da periferia do Rio de Janeiro
    uma nova chacina, desta vez mais violenta do que a última.
    Quem dera que o seu desejo de paz, através da música, ou melhor, das artes, modificasse este país. Será que, apesar da
    boa vontade de muitos,uns poucos
    porão sempre tudo a perder? Sinto-me, as vezes, muito impotente diante dos sonhos destes jovens ( aí, incluindo até os meus filhos) e me
    pergunto o que deixamos de fazer,ou para onde foram as utopias da nossa geração (tenho
    55 anos),já que não conseguimos
    legar a estes jovens um mundo
    melhor.

  4. nelson

    Eh Gerald, e neste mesmo dia ocorre a maior chacina do RJ. E o que fazer se o teatro, nem a poesia fazem eco nos meandros desta podridão que é a micropolítica carioca?

  5. Rodrigo A. Aguiar] [São Paulo / Brasil

    Caro Gerald, obrigado por publicar meus singelos comentários, peço perdão, pois sei que todos eles são críticos, espero que você não os tome como pessoais, pois sei que você tem grande prestígio e tem seu trabalho reconhecido (acredito eu que em nível mundial), eu sou apenas um universitário, de 25 anos, tentando sobreviver no país da diferença social, onde existem 02 mundos, ou quem sabe até 03 mundos direrentes um do outro, mas não quero falar sobre isso, pois estaria “ensinando o padre a rezar missa”.
    O que realmente quero dizer é que, apenas atos teatrais, homenagens ao mérito, não vão salvar o Rio, e nem o Brasil, é necessário outro tipo de manifestação social para livrar o povo de notíciais como esta:
    Chacinas no Rio matam 30 pessoas; PMs são suspeitos

  6. Flavio Barros

    [sobre o post do Odradek]…não apenas investir em educação, mas torná-la um valor, ao invés do número de carros, quartos ou sapatos. Tratar cultura como algo sério para o conjunto da população e não apenas um apêndice indesejável.
    Apesar das inúmeras iniciativas semelhantes à do AR, o excluído continua por fora, o injustiçado continua sem direitos, o negro continua na sombra, a mulher, a violência etc etc etc. Sempre me pergunto se elas não acabam sendo o espaço permitido de desvio, para que a vasta (surda, muda, cega, imóvel) maioria permaneça em berço esplêndido. De alguma forma, é necessário que se faça a luz em cada um dos brasileiros. Com todo respeito ao trabalho desse pessoal, não sei, realmente, se esses clarões não acabam sendo apenas fogos de artifício – até o ministro viajante estava lá, não é? – que impedem a tampa da panela de voar pelos ares. Promove-se a inclusão no gueto. Quero mais, quero o mundo.

  7. Odradek] [Abração e até breve.

    Há algo de muito errado, há uma grande pedra no meio do caminho e por alguma razão pouco se faz para tirá-la da frente. Eu volto ao óbvio e pergunto: porque o investimento em educação no Brasil é comparativamente menor do que o do Paraguai?? Os dados são recentes. E são trágicos também. Por isso não adianta o ministro Gilberto Gil dizer que trocou fralda de alguns meninos enquanto que gerações inteiras de meninos e meninas vão sofrer com as cagadas homéricas de governo atrás de governo. Governo é governo e Gilberto Gil é parte disso quer queiram ou não. Se o Brasil investe menos em Educação do que o Paraguai, isso reflete uma política adotada (aliás, mudando um pouco, se o MinC sofreu um corte violento no orçamento, culpa de seu ministro sim senhor e que agora corra atrás e tente recuperar). Como um país que vende aviões pro mundo todo não consegue ter uma política educacional minimamente decente?? Em 12 anos teríamos uma geração de brasileiros diferente, e quem sabe melhor.
    Odradek

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